Introdução ao Debate Realismo versus Antirrealismo

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RESUMO

Este artigo pretende introduzir e apresentar aos leitores e interessados o debate Realismo/Antirrealismo. Os que se sentiram atraídos pelo teor da disputa, e não têm ainda conhecimento suficiente para extraírem tudo o que as obras mais densas de autores clássicos e consagrados têm a oferecer, certamente encontrarão aqui uma boa ambientação às nomenclaturas, ao teor e ao espírito que permeia realistas e antirrealistas em suas argumentações. Este artigo foi baseado no conhecimento produzido por autores clássicos de ambos os lados do debate, tais como Ernan McMullin, Anjan Chakravartty, Thomas Kuhn, George Berkeley, Karl Popper, Yuri Balashov, Paul Thagard, dentre outros. O artigo foi dividido em três partes. O capítulo introdutório é uma apresentação de cada um dos lados, com o objetivo de definir o significado de cada posição filosófica para que o leitor consiga entender minimamente a diferença. A segunda parte expõe a base dos principais autores que tentam justificar os fundamentos de sua opção filosófica, e como tal posição foi desenvolvida ao longo da história. O último capítulo apresenta os principais desdobramentos contemporâneos do debate; a forma como cada lado evoluiu em sua argumentação após séculos de enfrentamento filosófico. Aborda também as contribuições filosóficas atuais ao debate em questão.

Palavras-chave: Instrumentalismo. Idealismo. Teoria científica. Ontologia. Metafísica.

CAPÍTULO 1 — O QUE SIGNIFICA REALISMO E ANTIRREALISMO?

    1. A posição triunfalista da ciência

É incontestável a posição triunfalista que a ciência tem adquirido nos últimos séculos, seja do ponto de vista cultural e de sabedoria oracular, seja pela confiança recebida da sociedade em geral e do ambiente acadêmico. A ampla confiança prestada às afirmações da ciência pode ser explicada, talvez, pela associação de sua existência à expansão tecnológica ou à própria produção de conhecimento.

Do ponto de vista do professor Marcos Rodrigues da Silva (2013), um dos principais elementos produtores de polêmica está ligado ao problema da compreensão da natureza da ciência, e se refere à concepção que os professores têm sobre ela, mesmo antes de transmitirem-na aos seus alunos. Isso demonstra que o problema começa no próprio âmbito escolar. Essa concepção, exposta principalmente nos livros didáticos, preconiza que a ciência é intrinsecamente experimental. É progressiva, porque se aproxima cada vez mais da verdade; e é uma atividade conduzida por uma metodologia universalmente aceita, muito bem definida e digna de confiança. O grande problema é que historiadores e filósofos têm afirmado repetidas vezes que essa imagem triunfante nem sempre condiz com as verdadeiras práticas da ciência.i É um antagonismo como este que irá pautar o debate apresentado neste artigo.

    1. O que é Realismo Científico?

Nas palavras de Anjan Chakravarttyii (2007),

O Realismo Científico, numa primeira aproximação, é a perspectiva de que as teorias científicas descrevem de modo correto a natureza de um mundo autônomo em relação à mente. […] A principal consideração em favor do realismo é antiga, embora mais recentemente seja referida como o “argumento do milagre” […] de que o realismo “é a única filosofia que não torna o sucesso da ciência um milagre”. As teorias científicas são tremendamente bem-sucedidas naquilo que nos permitem prever, manipular e identificar nos fenômenos do mundo, e a explicação mais simples disso é que elas descrevem corretamente a natureza do mundo, ou algo próximo disso. Na falta dessa explicação, o sucesso fornecido pela ciência poderia bem parecer miraculoso, e, dado a escolha, dever-se-ia sempre escolher o senso comum ao invés dos milagres. […] Não há necessidade de se explicar o sucesso dos organismos bem adaptados, [pois apenas eles] sobrevivem, assim como apenas as teorias bem adaptadas sobrevivem, e “bem adaptada” no último caso significa adequada às tarefas atribuídas às teorias.

Em nível ontológico, o Realismo está empenhado com a existência de uma realidade que sobrevive por si mesma, que não depende de uma teoria para existir, ou seja, sua existência é algo mais do que um conceito criado para dar sustentação a um esquema teórico-científico.

Segundo a visão de Khlentzos (2016), em nível metafísico, o Realismo está intimamente ligado ao pressuposto de que as entidades descritas e descobertas pela ciência, observáveis ou não, existem de modo independente dos conceitos e ideias humanas, quer se façam estudos sobre elas, quer não. No tocante às entidades inobserváveis, o Realismo entende que elas existem, mesmo que não se consiga desenvolver métodos adequados para sua detecção e/ou medição.iii

Em nível epistemológico, o Realismo concorda com a afirmação de que as alegações de uma teoria existem de modo independente da capacidade de medi-las e mesmo da consciência humana sobre sua existência. Ou seja, as afirmações contidas em uma teoria já existiam antes mesmo de serem formuladas.iv Entende-se que as melhores teorias científicas são descrições verdadeiras ou aproximadamente verdadeiras e independem da mente humana.

Antes de avaliar-se a filosofia antirrealista, torna-se fundamental uma síntese do Realismo Científico. Identificam-se quatro proposições centrais:

  1. Os argumentos presentes nas teorias científicas são referenciais;
  2. As teorias científicas são compreendidas de um modo real e afirma-se sobre elas que são próximas à verdade com base em evidências empíricas;
  3. A evolução do conhecimento nas ciências maduras é uma aproximação gradual da verdade em relação às coisas observáveis e inobserváveis;
  4. A realidade narrada pelas teorias não depende dos pensamentos e compromissos teóricos humanos para existir. Elas possuem existência independente.
    1. O que é Antirrealismo Científico?

Para introduzir o assunto e tentar responder a pergunta, convém voltar à análise de uma parte do Realismo. Na concepção de Samir Okasha (2002), os realistas sustentam que o objetivo da ciência é fornecer uma descrição verdadeira do mundo. Isso pode parecer uma doutrina completamente inofensiva, pois ninguém crê que a ciência deseja produzir uma descrição falsa do mundo. Mas não é isso que pensam os antirrealistas. Pelo contrário, os antirrealistas afirmam que o objetivo da ciência é fornecer uma descrição verdadeira de certa parte do mundo, aquela que pode ser observada e confirmada pelos sentidos humanos.

Quando falam sobre “a parte observável do mundo”, os antirrealistas se referem a coisas tais como mesas e cadeiras, árvores e animais, trovoadas e nevascas, e assim por diante. Coisas como essas podem ser percebidas diretamente pelos seres humanos, e é isso o que querem dizer quando as chamam de “observáveis”. Alguns ramos da ciência tratam exclusivamente de objetos observáveis. Um exemplo é a paleontologia, ou o estudo dos fósseis. Os fósseis são facilmente observáveis — qualquer um com visão normal pode vê-los. No entanto, outras ciências fazem afirmações sobre a parte inobservável da realidade. A física é um exemplo. Os físicos constroem teorias sobre átomos, elétrons, quarks, léptons, e outras partículas que não podem ser observadas no sentido normal da palavra. As entidades desse tipo estão muito além do alcance das faculdades de observação dos seres humanos. Quanto às ciências como a paleontologia, por exemplo, não há discordância filosófica entre realistas e antirrealistas, mas quando o objeto de análise é uma ciência como a física, os dois polos entram em choque. Os realistas afirmam que, quando os físicos divulgam teorias sobre elétrons e quarks, procuram fornecer uma descrição verdadeira do mundo subatômico, assim como os paleontólogos procuram fornecer uma descrição verdadeira do mundo dos fósseis. Os antirrealistas discordam: veem uma diferença fundamental entre as teorias que versam sobre o mundo subatômico e as que falam sobre paleontologia. Para os antirrealistas, quando os físicos falam de entidades inobserváveis, estão se referindo ao quê? Normalmente, eles dizem que essas entidades são apenas “ficções úteis”, criadas pelos físicos a fim de ajudá-los a prever o funcionamento de fenômenos que podem ser observados. Por isso, o Antirrealismo é também conhecido como “instrumentalismo”, pois considera as teorias científicas como instrumentos para ajudarem os cientistas a prever fenômenos observacionais, ao invés de tentar descrever a natureza obscura da realidade.

CAPÍTULO 2 — DESDOBRAMENTOS HISTÓRICOS DO DEBATE

    1. A importância da ontologia (ou metafísica) para o debate

Sob o ponto de vista da interessante explanação de Yuri Balashov (2002), muitos cientistas e alguns filósofos creem piamente que a presença dos termos teóricos é indispensável à compreensão dos fenômenos empiricamente observáveis. Eles sustentam que, apesar de não serem capazes de ouvir, saborear, cheirar, tocar ou ver elétrons, genes, quasares e estrelas de nêutrons, ou interagir com suas propriedades, a humanidade tem todas as razões para crer que eles existem. Se a teoria que confirma a natureza da matéria inclui leis sobre moléculas, átomos, léptons, bósons, e quarks, então certamente essas coisas existem e são reais.

Elas não só têm previsto cada vez mais a ocorrência de diferentes tipos de fenômenos — continua Balashov (2002) —, mas ao longo do tempo têm sido capazes de aumentar a precisão das previsões. Essas melhorias em longo prazo se traduzem em aplicações tecnológicas que têm sido cada vez mais importantes para a humanidade. Qual é a melhor justificativa para o fato de que a ciência “funciona”? A resposta parece evidente do ponto de vista do Realismo: a ciência funciona tão bem porque é aproximadamente verdadeira. Seria um milagre de proporções cósmicas se o sucesso preditivo da ciência e suas aplicações tecnológicas fossem apenas suposições aleatórias, pois seria o mesmo que dizer que a ciência trabalhou de modo acidental.

Apesar de seus atrativos para os cientistas, a dificuldade de conciliar o Realismo com o Antirrealismo fez do primeiro uma tese controversa na filosofia da ciência. Esse tipo de filosofia da ciência remonta pelo menos ao século XVIII, ao filósofo empirista britânico Berkeley, bem como a figuras de vanguarda da Inquisição que procuraram harmonizar as reivindicações heréticas de Galileu sobre o movimento da Terra em torno do Sol com a Sagrada Escritura e os pronunciamentos papais. De acordo com algumas versões da história desses clérigos, reconheceu-se que a hipótese heliocêntrica era pelo menos tão poderosa na previsão de fenômenos como a teoria de Ptolomeu, segundo a qual o Sol e os planetas se moviam em torno da Terra; eles aceitaram que poderia ser mais simples usar nos cálculos as aparentes posições dos planetas no céu noturno. Mas o suposto movimento da Terra foi empiricamente indetectável; a partir do ponto de vista humano, não se podia e nem se pode “sentir” que a Terra está se movendo.

Carnap (1963)v defendeu que a noção de independência é simplesmente sem significado. O positivismo lógico, emergente do círculo de Viena, articulou o (famoso) princípio verificacionista, segundo o qual o significado de uma proposição é o modo da sua verificação. Por exemplo, ao tomar-se como base o idealismo de Berkeley, de que o mundo é uma construção das mentes humanas, seria impossível verificar sua afirmação, pois seriam essas mentes que teriam de constatar o pressuposto, e se a realidade só existe dentro delas, então tal verificação não teria sentido, pois seria impossível ao homem declarar a veracidade ou a falsidade disso.

    1. A grande controvérsia: observáveis vs. inobserváveis

De acordo com a visão de Samir Okasha (2002), a motivação do Antirrealismo se origina, em grande parte, da crença de que não se pode obter conhecimento verdadeiro da parte inobservável da realidade, pois ela estaria além do alcance humano. Sendo assim, a ciência pode extrair conhecimento verdadeiro dos fósseis, das árvores e dos cristais de açúcar, mas não dos átomos, dos elétrons e dos quarks, pois coisas como essas são inobserváveis. Essa perspectiva não é totalmente inaceitável, pois ninguém poderia duvidar seriamente da existência de fósseis e árvores, embora possa afirmar-se o contrário para átomos e elétrons. Considere-se, por exemplo, a teoria atômica da matéria, que diz que toda a matéria é constituída de átomos. A teoria atômica é capaz de explicar uma quantidade enorme de fatos sobre o mundo. De acordo com os realistas, isso seria uma prova de que a teoria é verdadeira, que a matéria é realmente constituída de átomos que se comportam como a teoria diz. Por exemplo, o funcionamento da televisão se baseia no fato de os elétrons serem disparados contra a tela, fazendo-a acender nos mais diversos padrões. E algumas entidades são inobserváveis, não por causa de seu tamanho, forma ou distância, mas simplesmente por causa de sua natureza, ou seja, objetos de metal são atraídos por um ímã devido ao campo magnético que faz com que a massa do objeto resista à aceleração, porém, nem o campo nem a própria massa podem ser diretamente observadas. Entidades envolvidas nessas categorias espalharam-se por toda a ciência moderna. Contudo, o fato de não ser possível observá-las diretamente levanta uma questão: Há condições de comprovar se estão realmente lá? Se “sim”, como? Essas perguntas têm dividido os filósofos da ciência entre as duas correntes de pensamento expostas no primeiro capítulo.

    1. A mecânica quântica favoreceu os antirrealistas?

Nos debates entre realistas e antirrealistas, uma afirmação que os últimos fazem constantemente é que a mecânica quântica decidiu questões em seu favor. Para o realista Ernan McMullin (2002), o resultado da famosa polêmica envolvendo Bohr e Einstein, levando à suposta derrota (aos olhos da maioria dos físicos) de Einstein, é considerado como sendo também uma derrota para o Realismo. McMullin tentará mostrar que esse argumento não pode ser usado contra uma posição realista equilibrada. Foi a interpretação de Copenhague da mecânica quântica que deu impulso ao Antirrealismo. Seria o caso de o princípio da complementaridade de Bohr significar que as entidades teóricas da nova mecânica não autorizam qualquer tipo de reivindicação existencial sobre as estruturas do mundo? Parece que não, pois Bohr argumentava que o mundo é muito mais complexo do que a física clássica supõe, e que o debate sobre as entidades básicas da óptica e da mecânica — se são ondas ou partículas — não pode ser resolvido, porque os seus termos são insuficientes. Bohr acreditava que ambas as representações (onda e partícula) eram aplicáveis e necessárias, cada uma em seu próprio contexto. Bohr não está afirmando que nada pode ser deduzido sobre as entidades das quais o mundo se compõe a partir de sua interpretação da mecânica quântica. Muito pelo contrário, ele está argumentando que tudo o que se tem inferido está em completo desacordo com a visão clássica de mundo.

O uso de termos como “elétron”, e a aparente simplicidade causal da gota de óleo ou de experimentos como a câmara de nuvens poderia facilmente enganar ao supor que os elétrons são entidades individuais muito pequenas localizadas nas propriedades mecânicas de um padrão de massa e movimento, afirma McMullin (2002). No entanto, o limite existencial dos elétrons pode ser mais precisamente considerado como um estado do sistema ao qual ele está ligado do que como uma entidade separada. É apenas devido à carga que transporta (que é uma medida do acoplamento de prótons em relação ao elétron) que ele pode ser representado como uma entidade independente. Quando a força de acoplamento é maior, já que ocorre entre entidades nucleares como prótons e nêutrons, a questão se torna ainda mais problemática. Segundo a teoria quântica relativista, as forças entre essas entidades são produzidas pela troca de mésons. O que se entende por “partícula” neste caso fica reduzido à expressão da força de um campo particular. E a situação é ainda mais complicada quando se cogita a hipótese de quarks em teoria quântica de campos. Embora quarks supostamente “constituam” outras entidades, como prótons, eles não podem ser considerados como “constituintes” no sentido físico comum; pois eles não podem ser dissociados (separados) dessas entidades, nem podem existir independentemente delas (McMULLIN, 2002, pp. 250-255).

    1. O argumento do milagre

Na visão de Pierre Cruse (2003), muitas teorias científicas que foram apresentadas ao longo da história se justificam porque foram criadas para dar as melhores explicações sobre uma evidência conhecida, o que levaram a previsões mais surpreendentes e inovadoras e, finalmente, se tornaram realidade. Agora, de acordo com o realista científico, era exatamente isso que se devia esperar delas, pois o que apresentam é realmente a verdade. Mas, ao admitir-se a hipótese de que o Antirrealismo é verdade, o qual afirma que as teorias não fazem afirmações verdadeiras sobre coisas não observáveis, então a capacidade dessas teorias para fazer previsões verdadeiras seria inexplicável; a não ser que fossem fruto de um evento incrivelmente fortuito ou casual — um milagre. Assim, o realista científico afirma que é muito mais razoável e coerente supor que as teorias de sucesso são realmente verdadeiras.

Muitos realistas científicos sustentam que o argumento do milagre fornece parte do apoio mais forte para o Realismo. No entanto, nem todos os filósofos da ciência foram convencidos por esse argumento. Ele exige a aceitação inconteste de que certas teorias da ciência têm sido muito bem-sucedidas em prever fenômenos, e que, por isso, são verdadeiras, e que as entidades sobre as quais tratam existem de fato. Mas quando se reflete sobre certos eventos na linha do tempo da história da ciência, torna-se óbvio que essa afirmação enfrentará problemas.

Por exemplo, o filósofo Anjan Chakravartty (2007) traça um relato a partir de um objeto localizado em seu escritório para ilustrar a grande questão metafísica que continua dividindo realistas e antirrealistas:

Pendurada em meu escritório está uma imagem emoldurada de uma esfera armilar que reside no Whipple Museum of the History of Science em Cambridge, Inglaterra. Uma esfera armilar é um globo celestial. […] As esferas armilares foram inventadas na Grécia antiga e desenvolvidas como instrumentos para o ensino e o cálculo astronômicos. […] Há muito tempo, os astrônomos especulavam sobre as causas e mecanismos dos movimentos dos planetas e das estrelas, e a ontologia [metafísica] de suas esferas cristalinas foi uma característica central da teoria astronômica por centenas de anos. Mas esferas cristalinas não são o tipo de coisa que se possa observar, pelo menos não a olho nu a partir da superfície da Terra. Ainda que viessem a existir, é duvidoso que alguém tivesse sido capaz de inventar um instrumento para detectá-las antes dos dias dos satélites e dos ônibus espaciais. Grande parte da energia nas ciências é consumida na tentativa de testar e descrever as coisas que são inacessíveis aos sentidos nus, seja na prática ou em princípio. A minha esfera armilar, com a sua gloriosa e complicada quantidade de círculos entrelaçados, é uma rememoração dos testamentos passados dessa obsessão.

Deixando de lado o fato de que muitas teorias científicas do passado foram abandonadas e são consideradas obsoletas e não verdadeiras, uma segunda característica da história da ciência é que muitas dessas teorias, apesar de terem sido descartadas, eram em maior ou menor grau bem-sucedidas na explicação e previsão de fatos que podiam ser observados. Por exemplo, a teoria das esferas cristalinas de Aristóteles (que deu origem à esfera armilar), embora falsa, foi capaz de prever os movimentos dos planetas com um alto grau de precisão. A teoria de Newton foi capaz de gerar uma enorme variedade de previsões de sucesso durante um período superior a dois séculos, enquanto permaneceu como a teoria predominante na física.

No entendimento do professor Eduardo Barra (1998), o que garante que as atuais entidades teóricas, mais cedo ou mais tarde, não terão o mesmo destino daquelas do passado?vi

Por isso, Thomas Kuhn (1978, pp. 252-254) foi muito feliz em sua abordagem ao tentar salvar a reputação do Realismo. Ele rechaçou o relativismo científico em sua obra, A estrutura das revoluções científicas. Os defensores de teorias diferentes, no seu entender, são como membros de comunidades de cultura e linguagem diferentes. Reconhecer esse paralelismo sugere, em certo sentido, que ambos os grupos poderiam ter certo grau de certeza. Essa posição é relativista quando aplicada à cultura e seu desenvolvimento, mas não quando aplicada à ciência, e de qualquer modo está longe de um simples relativismo. Além disso, como um historiador, ele ficou impressionado com a falta de plausibilidade dessa concepção (a concordância entre uma teoria e a realidade observável). Não há dúvida, por exemplo, de que a Mecânica de Newton aperfeiçoou a de Aristóteles e de que a Mecânica de Einstein aperfeiçoou a de Newton enquanto instrumento para a resolução de um quebra-cabeça. Mas não se percebe nessa sucessão, uma direção coerente de desenvolvimento ontológico (metafísico). Ao contrário: em alguns aspectos importantes, embora de forma alguma em todos, na opinião de Kuhn, a Teoria Geral da Relatividade de Einstein está mais próxima da teoria de Aristóteles do que qualquer uma das duas está da de Newton. Embora a tentação de descrever essa posição como relativista seja compreensível, a descrição parecia equivocada a Kuhn.

Ainda sob o ponto de vista Kuhniano (1978, pp. 31-33), é necessário justificar as teorias realistas usando outro argumento, o paradigma científico. Antes de ter sido desenvolvida por Planck, Einstein e outros no começo do século XX, os textos de Física ensinavam que a luz era um movimento ondulatório transversal, concepção que em última análise derivava dos escritos ópticos de Young e Fresnel, publicados no início do século XIX. Durante o século XVIII, o paradigma para este campo de estudos foi proporcionado pela Óptica de Newton, a qual ensinava que a luz era composta de corpúsculos de matéria. Essas transformações de paradigmas da Óptica Física são revoluções científicas e a transição sucessiva de um paradigma a outro, por meio de uma revolução, é o padrão usual de desenvolvimento da ciência amadurecida. No entanto, este não é o padrão usual do período anterior aos trabalhos de Newton. É este contraste que é o ponto de interesse aqui. Nenhum período entre a antiguidade remota e o fim do século XVII exibiu uma única concepção da natureza da luz que fosse geralmente aceita. Em vez disso havia um bom número de escolas e subescolas em competição, a maioria das quais esposava uma ou outra variante das teorias de Epicuro, Aristóteles ou Platão. Um grupo considerava a luz como sendo composta de partículas que emanavam dos corpos materiais; para outro, era a modificação do meio que intervinha entre o corpo e o olho; outro ainda explicava a luz em termos de uma interação do meio com uma emanação do olho; e haviam outras combinações e modificações além dessas. Cada uma das escolas retirava forças de sua relação com alguma metafísica determinada. Cada uma delas enfatizava, como observações paradigmáticas, o conjunto particular de fenômenos ópticos que sua própria teoria podia explicar melhor. Outras observações eram examinadas através de elaboração ad hoc ou permaneciam como problemas especiais para a pesquisa posterior. Em épocas diferentes, todas estas escolas fizeram contribuições significativas ao corpus de conceitos, fenômenos e técnicas dos quais Newton extraiu o primeiro paradigma quase uniformemente aceito na Óptica Física. Qualquer definição do cientista, que exclua os membros mais criadores dessas várias escolas, excluirá igualmente seus sucessores modernos. Esses homens eram cientistas. A escolha das observações e experiências que sustentavam tal reconstrução era relativamente livre. Não havia qualquer conjunto-padrão de métodos ou de fenômenos que todos os estudiosos da Óptica se sentissem forçados a empregar e explicar. Nestas circunstâncias o diálogo dos livros resultantes era frequentemente dirigido aos membros das outras escolas tanto como à natureza. Hoje em dia esse padrão é familiar a numerosos campos de estudos criadores e não é incompatível com invenções e descobertas significativas. Contudo, este não é o padrão de desenvolvimento que a Óptica Física adquiriu depois de Newton e nem aquele que outras ciências da natureza tornaram familiar hoje em dia.

Apesar do sucesso obtido com a teoria do paradigma como uma ajuda significativa ao Realismo Científico, o debate não perdeu a sua força e retornou com redobrado vigor. Até hoje o questionamento inicial permanece: qual seria o limite para o conhecimento humano? O realista continua a afirmar que, apesar da existência de um mundo exterior independente das percepções humanas, a ciência busca o conhecimento pleno dessa realidade, e é por causa dessa busca que ela progride. Quanto mais se desenvolve, mais o ser humano tem acesso aos aspectos desse mundo independente. Por outro lado, ao considerar-se a posição antirrealista, os limites do conhecimento são estabelecidos pelas faculdades humanas de observação, e nada mais além disso.

Apesar de tantas argumentações e filosofias, as duas posições se encontram bem defendidas por propostas sólidas postuladas por pensadores e intelectuais sagazes. No próximo capítulo serão considerados os desdobramentos atuais entre ambas, e que grau de intensidade o debate tem alcançado hoje.

CAPÍTULO 3 — O DEBATE REALISMO/ANTIRREALISMO NA CONTEMPORANEIDADE

    1. Um caso para exemplificar a complexidade do debate

Dentro do debate abrangido e apontado neste artigo, é fundamental voltar o olhar ao passado a fim de entender alguns aspectos ausentes desta atividade até agora.

Sob a ótica do professor Marcos Rodrigues da Silva (2013), as pesquisas no ensino de ciênciasvii têm indicado a importância do debate a respeito da própria natureza científica. Para ele, uma alternativa plausível para um ensino bem-sucedido seria a classe docente assumir uma postura filosófica e abordar os conceitos que regem as entidades inobserváveis. Quanto às concepções obsoletas, descartadas por teorias científicas mais modernas, como o caso do flogisto, é comum afirmar-se que foram relegadas ao esquecimento porque não podiam ser testadas empiricamente, ou porque eram falsas. No entanto, na época em que o conceito de flogisto dominava, estava inserido em uma rede teórica bastante explicativa, que justificava o seu emprego.

Um dos aspectos que mais prejudica a absorção do debate realismo/antirrealismo está intimamente ligado à concepção comum e popular de ciência. Qual é a imagem de ciência que a mídia e os professores da área costumam transmitir, que tem povoado o ideário do mundo em geral? Essa imagem, veiculada principalmente pelos livros didáticos, preconiza que a ciência é basicamente uma atividade experimental. É progressiva, ou seja, se aproxima cada vez mais da verdade, e é uma atividade pautada por um procedimento globalmente aceito e bem definido. No entanto, historiadores e filósofos da ciência têm declarado que esse conceito é equivocado, pois muitas vezes não reflete as técnicas reais dos profissionais da área.

Assim como Ernan McMullin se apossou da história científica de Galileu para fazer disso um caso de defesa do Realismo Científico, este último capítulo do presente artigo pretende fazer uso da história da substituição do conceito de flogisto pela teoria do oxigênio a fim de introduzir aspectos atuais do debate que não foram abordados ou aprofundados até o presente momento. Em grande parte, essa introdução basear-se-á no trabalho dos professores Marcos Rodrigues da Silva (2013), Gyung Kim (2008)viii e Paul Thagard (1990)ix, pois todos eles se aprofundaram, de uma forma ou outra, no caso de Lavoisier e de sua teoria do oxigênio.

De acordo com a opinião de Kim (2008), a estabilidade do flogisto na química francesa do século XVIII não dependia de seu papel como teoria abrangente, mas estava baseado em suas identidades operacionais (instrumentais), em seus aspectos teóricos e filosóficos (especulativos) que foram formados em diferentes contextos e em seguida entrelaçados para designar uma única substância. Era tão “real” como qualquer outra substância química. À medida que ia sendo construída por meio de operações materiais, sua identidade ocupou um lugar importante no edifício teórico e era dotado de uma ontologia corpuscular. Lavoisier a rotulara como substância “imaginária”, pois ele ergueu uma frente única de resistência a ela, a partir de sua visão da nova química com base em medições “métricas” e representações algébricas.

A história da química no período anterior a Lavoisier (por volta do final do século XVI e início do século XVII), registra a proposta e a manutenção da teoria do flogisto. De acordo com essa teoria, entre os princípios que governavam as mudanças de estado dos corpos encontrava-se o princípio da inflamabilidade, o flogisto. Quando havia combustão, o corpo mudava de estado pelo fato de liberar flogisto. As cinzas da queima nada mais eram do que uma alteração química na qual o corpo originário (um pedaço de madeira, por exemplo) desprendeu sua cota de flogisto e, com isso, converteu-se em cinza. Um processo semelhante ocorria com o enferrujamento (oxidação): a ferrugem era o resultado da liberação, por parte do metal, de seu flogisto, só que em um ritmo muito mais lento. De acordo com o principal defensor da teoria do flogisto — Georg Stahl —, combustão e enferrujamento obedeceriam aos mesmos processos químicos, ainda que em velocidades radicalmente diferentes. Em suma: a explicação para ambos os fenômenos era encontrada nos mesmos princípios. O termo teórico flogisto era usado por seus defensores como sendo uma substância que, a princípio, carecia de referencialidade, ou seja, de visibilidade empírica. Faltavam-lhe evidências experimentais. Onde estava o flogisto? O flogisto não era a cinza nem a ferrugem, mas um “princípio” que criava cinza e ferrugem. Na queima, era assumido que esse princípio inflamável estava se desprendendo (LEICESTER, 1971, p. 120)x. Pois bem, se fosse correto afirmar que o flogisto se evadia na queima e no enferrujamento, então tinha de se descobrir um modo de verificar suas propriedades ou sua existência pela experimentação. Daqui para frente atravessa-se uma fronteira interessante para o debate Realismo/Antirrealismo. Um ponto é garantir que a teoria do flogisto justifica os fenômenos, e outra é garantir que seu principal personagem — o flogisto — possuía credenciais empíricas, pois estas últimas eram inexistentes de todo. É bom notar-se que a história da ciência sempre registrou certa tolerância da comunidade científica no tocante a entidades não observáveis (KUHN, 1970, pp. 127-128). No caso do flogisto, ele era a base de uma teoria que, na sua época, explicava de forma muito bem-sucedida por que certos fenômenos se comportavam da forma como se comportavam. Em um modelo filosófico que favoreça a ontologia, ou explicação científica, não há por que se surpreender com a questão da ausência de referencial empírico para a suposta entidade flogisto.

Ainda sob a visão do professor Marcos Rodrigues da Silva (2013), um dos cientistas que ocupou papel de destaque nas descobertas químicas a respeito dos gases que compõem o ar foi Joseph Priestley. Enquanto investigava, ele chegou a postular a existência de um “ar desflogistizado”. O que seria isso? Se a combustão e a respiração ocorrem de forma inigualável na presença desse ar, era porque seu flogisto fora, de alguma forma, removido. Era um ar puro, um ar que não continha mais o princípio inflamável dos corpos, o flogisto, que, acreditava-se, era liberado durante a combustão. Contudo, que reações seriam provocadas pela formação de um novo conceito como o tal “ar desflogistizado”? Lavoisier foi muito cauteloso quanto a essa nova suposição; ele estava mais do que nunca convencido de que o agente na combustão e na produção de cinzas era uma parte do ar, talvez um gás específico. Futuramente, o “ar desflogistizado” seria chamado oxigênio. Essa adição à teoria flogística era uma novidade, mas seu alcance não era amplo o suficiente para evitar a destruição do conceito de flogisto, o qual Prietsley queria manter, por ser adepto da teoria. Com efeito, afirmar que certo tipo de ar não contém flogisto equivale a construir argumentações dentro de um ambiente ainda dominado pela teoria do próprio flogisto (MARCOS RODRIGUES DA SILVA, pp. 487-488).

Pode parecer um engano concluir que, com o esquecimento da teoria do flogisto, a química se livrou de uma sobrecarga metafísica. Naturalmente, após a adoção do novo programa de Lavoisier, é adequado inferir que o conceito de flogisto não tinha representação ou confirmação empírica que lhe desse validasse; mas ele tinha em sua época um significado científico, pois estava inserido em uma teoria que era suficientemente explicativa para os padrões da época. Os seguidores do flogisto não o entendiam como algo que existisse apenas de modo metafísico, pois enquanto queimavam elementos em seus laboratórios, acreditavam que a chama era a real emanação de uma substância, o flogisto. E, se houve ensejo de se criticar o fato de que o flogisto era a causa das chamas, isso jamais ocorreria por causa de um questionamento à teoria, como se alguém tivesse dito: “Isto não está ocorrendo por causa da ação do flogisto, mas devido a outra causa”. Por isso, a proposta não era simplesmente fazer uma substituição do flogisto por outra substância, mas sim algo muito mais audacioso, que deveria mudar a própria ontologia da combustão: já era possível explicá-la sem fazer apologia ao flogisto, mas sim a outros processos bem distantes dos que eram previstos nessa teoria. Mesmo assim, há um foco indispensável a ser destacado — que toda a querela do oxigênio e do flogisto é o “olho” de uma revolução científica: Lavoisier dá a entender com toda a clareza que possui um novo esquema conceitual com a intenção de remodelar a química de sua época. Esse novo projeto inclui criar nova nomenclatura química, novas bases científicas. Não se tratava de se descobrir mais coisas sobre o flogisto.

Observa-se que, desde muito cedo, Lavoisier descobre que os metais ganham peso durante a combustão. Tudo indica que essa descoberta era apenas uma pequena parte de um intrincado e meticuloso trabalho de reconstrução ontológica. Lavoisier não devia somente provar que houve aumento de peso, mas explicar o processo. Como a interpretação não é incumbência dos experimentos, mas sim de uma teoria, seu próximo ato no drama seria a elaboração de um esquema teórico que pudesse chamar de “seu”. Concluindo, Lavoisier não deve só explicar a combustão, pois o processo se complica mais quando se leva em consideração outras dinâmicas importantes da interpretação teórica. No caso dele, não apenas forneceu certas explicações para os fenômenos; em vez disso, apresentou uma forma inovadora para explicar — o que, no seu caso, significou construir uma nova química. Isso revela claramente como o nascimento de uma nova metodologia explicativa é um procedimento bem mais complicado do que apenas demonstrar que o mercúrio adquire mais peso após o aquecimento. Ao sugerir um esquema alternativo, Lavoisier precisa mostrar não somente os efeitos do aquecimento, mas ao mesmo tempo precisará persuadir seus colegas de que um esquema matemático é uma excelente escolha na busca da compreensão do fenômeno da queima. A partir desse processo é criada uma imagem de ciência. Não se observa mais somente um cientista fazendo suas experiências. Agora surge o teórico que precisa criar esquemas explicativos, e o debatedor que precisa convencer seus interlocutores da necessidade de pesar os elementos. Essa projeção de ciência mostra a estruturação do saber científico de uma maneira bem diversa da compreensão tradicional, em que réplicas tais como “sim” ou “não” possuem pouca eficiência; cuja imagem apresenta de modo inusitado as dificuldades que as grandes personalidades da ciência encararam a fim de recomendar novas formas de diálogo com a realidade. Lavoisier em nada se parece com a imagem ideal do cientista que remove da química o antiquado e ultrapassado modelo teórico do flogisto. Diante desse novo panorama, Lavoisier titubeia, se torna por vezes inseguro, duvida, e resolve esperar a hora exata para proclamar suas ideias. Seus adeptos, do mesmo modo, não proclamam a inexistência do flogisto e a veracidade empírica do oxigênio. Pelo contrário, são correligionários que veem nas postulações de Lavoisier uma oportunidade para a construção de um novo programa específico para a química, uma estrutura que propague a criação de uma nova produção científica para processos químicos. Dentro dessa nova realidade, o flogisto não é, de forma alguma, um elemento importante e bem-vindo. A questão já não envolve mais o fato de que ele existe ou não existe. Na verdade, começando por Lavoisier, o empenho dirigiu-se ao desenvolvimento de uma nova química, e não à afirmação da inexistência do flogisto. Por isso, ressalta-se que é intrínseco à natureza da ciência escolher certos problemas como seus favoritos e descartar outros. No momento em que a nova teoria de Lavoisier se torna soberana, as referências ao flogisto extinguem-se em uma velocidade impressionante, mesmo que sua existência não tenha sido declarada uma falsidade. Sendo assim, a raiz da dificuldade não se encontra mais em se ter certeza quanto a certas propriedades do flogisto, mas porque as indagações da ciência mudaram completamente de foco.

Ao final desta introdução, pode-se perceber que a imagem universal de ciência não é uma projeção da realidade, mas uma projeção do ideário comum, devido à noção triunfalista que as pessoas desenvolveram no tocante às práticas científicas. Embora esta discussão não esteja diretamente ligada ao debate realismo/antirrealismo, ela é muito útil para identificar que mesmo a ciência projeta valores intrínsecos à ideia de humanidade, indicando que sua prática está longe de ser neutra, e ainda mais distante de ser uma prática não influenciada pelas “fraquezas” inerentes ao ser humano.

    1. Antigos debates ressurgem com novas roupagens

Quem imagina que as alegações antirrealistas e suas congêneres são novas, está totalmente enganado. Embora em formato antigo, mas mantendo a mesma essência que atravessou séculos até hoje, George Berkeley (versão 2006, pp. 115-116)xi expôs de forma elegante o seu idealismo contundente e objetivo.

Na busca da verdade, segundo ele, nada é tão importante quanto o cuidado de não se deixar enganar por termos que não podem ser compreendidos corretamente. A consideração sobre o movimento (cinética) perturbou sobremaneira as reflexões dos filósofos antigos e revelou diversas opiniões excessivamente obscuras (para não dizer absurdas, na visão de Berkeley), que não merecem uma discussão mais detalhada. Nas obras acerca do movimento proclamadas por pensadores “mais recentes e sensatos” de sua época, eram vários os termos utilizados com significado abstrato e obscuro. Ele cita como exemplo a atração da gravidade, o impulso, as forças mortas etc.. Esses termos obscureceriam os escritos que, em outros aspectos, eram bastante elucidativos e davam origem a opiniões conflitantes entre a verdade e o bom senso dos homens. Esses termos precisavam ser examinados com grande cuidado, não pelo desejo de provar que outras pessoas estão erradas, mas pelo interesse na verdade. Em seu raciocínio, quando o ser humano suporta corpos pesados, experimenta o esforço, o cansaço e o desconforto. Percebe-se também, nos corpos pesados em queda, um movimento acelerado em direção ao centro da Terra; e isso é tudo o que os sentidos informam ao homem. Contudo, infere-se pela razão que existe alguma causa ou princípio nesses fenômenos, e esse princípio é popularmente denominado “gravidade”. Porém, uma vez que a causa da queda dos corpos pesados não pode ser vista nem conhecida, a gravidade não pode ser apropriadamente denominada, nesse sentido, uma qualidade sensível, pois é antes uma qualidade oculta. Mas dificilmente alguém poderia conceber o que é uma qualidade oculta ou como qualquer qualidade pode agir ou executar qualquer coisa — de fato, não se pode conceber. Dessa forma, os homens fariam melhor se deixassem de lado as qualidades ocultas e prestassem atenção apenas aos efeitos sensíveis. Termos abstratos (conquanto possam ser úteis num argumento) deveriam ser rejeitados pela reflexão, e a mente deveria fixar-se apenas no particular e no concreto, isto é, apenas nas próprias coisas. Da mesma forma, força é atribuída aos corpos; e essa palavra é utilizada como se significasse uma qualidade conhecida, qualidade essa separada do movimento, da figura e de todas as outras coisas sensíveis, bem como isolada de todo vínculo com as coisas vivas. Mas, ao examinar a questão de um modo mais cuidadoso, concordar-se-á que tal força nada é além de uma qualidade oculta. O esforço animal e o movimento corporal são, via de regra, considerados como sintomas e medidas dessa qualidade oculta. Obviamente, então, é inútil estabelecer, na visão do filósofo, a gravidade ou a força como princípio do movimento, pois como esse princípio poderia ser mais claramente conhecido, se é caracterizado como uma qualidade oculta? Segundo ele, o que é oculto nada explica. E não é necessário dizer que uma causa ativa desconhecida poderia ser mais corretamente chamada de substância do que de qualidade. Além disso, força, gravidade e os termos dessa espécie são utilizados com frequência de forma concreta (e, desse modo, são utilizados corretamente) para sugerir o corpo em movimento, o esforço de resistência, etc. Mas quando eles são empregados pelos filósofos para exprimir certas naturezas abstraídas de todas essas coisas, naturezas que não são objetos dos sentidos, elas não podem ser compreendidas por qualquer poder do intelecto e nem concebidas pela imaginação e, assim, originam o engano e a perplexidade.

Berkeley apoiava o empirismo de John Locke, porém rechaçava e excluía completamente a transferência dos dados fornecidos pela experiência humana para o conceito abstrato de substância material. Então, assumiu o empirismo em seu formato mais radical ao preconizar que uma substância material não pode ser conhecida em si mesma ou apreendida em sua essência pela razão humana. O que se conhece, na verdade, na opinião dele, se resume às qualidades reveladas durante o processo empírico, que podem ser detectadas e constatadas pelos sentidos humanos. Desse modo, existiria apenas um feixe de sensações geradas pela interação humana com as coisas, e é por isso que a frase latina Esse est percibi, “ser é ser percebido”, se aplicaria perfeitamente à filosofia de Berkeley. O que ele questiona não seria a negação do mundo exterior, mas a importância fundamental, desde Descartes, de uma noção de matéria como constituinte de tudo o que é e que seria diferente da substância pensante (substância tal como percebida pelo homem). A fim de escapar e negar o subjetivismo individualista, que preconiza que tudo que existe, existe apenas do ponto de vista da mente de cada indivíduo, Berkeley formulou a existência de uma mente cósmica que seria universal e superior à mente dos homens individuais. Deus seria essa mente e tudo o mais seria percebido por Ele, de modo que a existência do mundo externo à mente individual e subjetiva do homem estivesse garantida, embora inatingível do ponto de vista do cognoscível humano.

Apesar de Berkeley estar inserido neste debate, não foi o único filósofo de seu tempo. Houve outros desde Descartes, que pertencem ao mesmo debate, inclusive o próprio Newton. Há quem assevere que o debate teve sua origem na Grécia, com Platão e Aristótelesxii.

    1. Projeções contemporâneas

Na opinião de Samir Okasha (2002), para muitas pessoas, o Realismo parece mais aceitável do que o idealismo, pois o Realismo se acomoda bem à noção comum de que os fatos sobre o mundo estão fora da mente humana, esperando ser simplesmente descobertos, ao passo que o idealismo não vê dessa forma. Na verdade, o idealismo, na opinião do intelectual, pode parecer uma tolice. Se as rochas e as árvores continuariam existindo no caso de os seres humanos serem extintos, em que sentido a existência dessas coisas dependeria das mentes humanas? Na verdade, a questão é bem mais sutil do que isso, e ainda hoje continua a ser debatida pelos filósofos.

Embora esse duelo pertença a uma área da filosofia chamada metafísica, nada tem que ver diretamente com a ciência prática. O interesse neste capítulo é a busca por um debate mais recente e específico sobre a ciência, e que de certo modo é equivalente à disputa tradicional. O debate é o centro desta obra, e seus desdobramentos na atualidade são muito interessantes.

    1. Ataques e contra-ataques

A argumentação realista — O argumento considerado até hoje como a prova realista mais bem fundamentada é o “argumento do milagre”, uma proposta abordada no capítulo dois deste artigo. Contudo, alguns detalhes desse argumento precisam de uma avaliação. Muitas teorias que tratam de entidades inobserváveis são experimentalmente bem-sucedidas, ou seja, preveem de forma eficaz o comportamento dos elementos do mundo observável. A teoria da dinâmica e do comportamento dos gases, na visão de Samir Okasha (2002), é um exemplo, e há muitas outras. Além disso, essas teorias quase sempre têm aplicações tecnológicas fundamentais. Observa-se que a tecnologia laser se baseia em uma teoria sobre o comportamento dos elétrons. Em um dado átomo, quando passam de estados de energia mais altos para estados mais baixos, isso propicia a formação desses raios. E os lasers funcionam, pois permitem corrigir a visão humana, possibilitam atacar os inimigos com mísseis teleguiados, e ainda muito mais. A teoria que sustenta a tecnologia laser é, portanto, experimentalmente muito bem-sucedida. Ao observar-se tudo isso, seria uma coincidência extraordinária se uma teoria que fala sobre elétrons e átomos fizesse previsões tão exatas sobre o mundo observável, a não ser que elétrons e átomos existam de fato. Se não há átomos e elétrons, por que a explicação da teoria está perfeitamente sincronizada com o que se observa no raio laser? Ao mesmo tempo, como se justificariam os avanços tecnológicos baseados nessas teorias, senão admitindo que as mesmas sejam verdadeiras?

A contra-argumentação antirrealista — Os antirrealistas responderam ao argumento do “milagre” de diversas maneiras. Recorrendo-se mais uma vez à opinião de Okasha (2002), uma resposta apela a certos fatos da história da ciência. Historicamente, há muitos casos de teorias que agora se acredita serem falsas, mas que foram empiricamente muito bem-sucedidas em seu tempo. Num conhecido artigo, o filósofo da ciência americano Larry Laudan (apud SAMIR OKASHA, 2002) lista mais do que trinta dessas teorias, tiradas de uma porção de disciplinas científicas e de épocas diferentes. A teoria do flogisto da combustão, exaustivamente dissecada na introdução deste capítulo, é um exemplo. A química contemporânea ensina que o flogisto é coisa que não existe. Ao invés disso, a combustão ocorre quando as coisas reagem com o oxigênio do ar. Mas a despeito da inexistência do flogisto, a teoria era muito bem-sucedida: enquadrou de forma bem razoável os dados observacionais disponíveis naquele momento histórico. Exemplos deste tipo sugerem que o argumento do “milagre” a favor do realismo científico é um tanto apressado. Os realistas apregoam o sucesso empírico das teorias científicas de hoje como a maior prova de que esse é o melhor argumento. Entretanto, a história da ciência mostra que, com frequência, as teorias empiricamente bem-sucedidas se revelaram falsas. Nesse caso, como afirmar que não acontecerá o mesmo com as teorias de hoje? Como saber se a teoria atômica da matéria, por exemplo, não seguirá o mesmo caminho da teoria do flogisto? Ao prestar-se a devida atenção à história da ciência, argumentam os antirrealistas, pode-se ver que a inferência do sucesso empírico a favor da verdade teórica é muito duvidosa. A atitude racional perante a teoria atômica (e outras) é de agnosticismoxiii: pode ser verdadeira ou não. Simplesmente não há como se saber, dizem os antirrealistas.

Esse é um forte revide ao argumento do “milagre”, argumenta Okasha (2002), mas ainda não é plenamente conclusivo. Os realistas reagiram fazendo ligeiras modificações no argumento. Conforme a nova versão, o bom êxito experimental de uma teoria seria uma forte evidência de que suas afirmações acerca do mundo inobservável são próximas da verdade, e não TOTALMENTE verdadeiras. Essa ligeira modificação blinda o argumento do milagre, deixando-o menos vulnerável a contraexemplos da história da ciência. E torna-o também mais moderado e menos pretensioso: dá condições ao realista de aceitar que as modernas teorias podem não ser exatas em seus pormenores, e mesmo assim continuar afirmando que estão no trilho certo. Mas há ainda outro modo de se alterar o argumento — é só aperfeiçoar a noção de bom êxito empírico. Muitos realistas garantem que o bom êxito empírico é muito mais do que um ajuste dos dados observacionais conhecidos, pois envolve dar a capacidade aos cientistas de prever novos fenômenos observacionais ainda desconhecidos. Quanto a esse método mais rígido de sucesso observacional, é mais improvável que se encontrem exemplos históricos de teorias empiricamente bem-sucedidas que se mostraram falsas a posteriori.

Se esses ajustes irão blindar e proteger o argumento do “milagre” é algo discutível. Obviamente, sob a ótica de Okasha (2002), irão reduzir o número de contraexemplos históricos, mas mesmo assim sempre sobra algo com que se jogar. Um contraexemplo que ainda está aí é a hipótese ondulatória da luz, construída por Christian Huygens em 1690. De acordo com essa teoria, a luz é feita de vibrações ondulatórias em um meio invisível chamado “éter”, que supostamente preencheria todo o universo. A teoria antagônica a essa era a teoria da luz como partícula, preferida por Newton, que sustentou que a luz consistia de partículas emitidas por uma fonte de luz. A teoria ondulatória só foi aceita quando o físico francês Auguste Fresnel em 1815 formulou uma versão matemática da teoria e a usou para prever alguns novos fenômenos ópticos surpreendentes. Os experimentos ópticos que confirmaram as previsões de Fresnel convenceram muitos cientistas no século XIX de que a teoria ondulatória da luz tinha de ser verdadeira. Mas a física contemporânea nos diz que a teoria não é verdadeira: o éter é coisa que não existe e, portanto, a luz não consiste de vibrações através dele. Novamente, surge um exemplo de uma teoria falsa e empiricamente bem-sucedida que teve a capacidade, mesmo assim, de prever fenômenos ainda desconhecidos.

A característica importante deste exemplo é que serve mesmo contra a versão modificada do argumento do “milagre” — alega Okasha (2002). Pois a teoria de Fresnel fez novas previsões, sendo, pois, empiricamente bem-sucedida mesmo com relação à noção mais estrita de sucesso empírico. E é complicado entender como se pode chamar “aproximadamente verdadeira” à teoria de Fresnel, dado que estava baseada na ideia de éter, algo que não existe. Seja lá o que for que signifique exatamente uma teoria ser aproximadamente verdadeira, uma condição necessária é que as entidades das quais fala a teoria realmente existam. Em suma, a teoria de Fresnel era empiricamente bem-sucedida mesmo de acordo com um entendimento estrito dessa noção, embora jamais tenha sido aproximadamente verdadeira. A moral da história, dizem os antirrealistas, é que não se deve admitir que as teorias científicas contemporâneas estejam, ainda que grosseiramente, num caminho correto, só porque são empiricamente tão bem-sucedidas. Se o argumento do “milagre” é um bom argumento a favor do realismo científico, deverá permanecer uma questão em aberto. Por um lado, como se pode observar, o argumento está sujeito a objeções suficientemente sérias. Por outro, há algo no argumento que é perceptivelmente muito forte. É difícil, em realidade, aceitar que os átomos e elétrons poderiam não existir, quando se considera o surpreendente sucesso das teorias que postulam essas entidades. Mas como a história da ciência mostra, todos devem ser muito cautelosos ao assumir que as teorias científicas atuais são verdadeiras, ainda que se acomodem bem aos dados. No passado, muitas pessoas creram cegamente nisso e provou-se estarem erradas.

    1. Novos embates sobre a questão observável/inobservável

Ainda sob a visão de Okasha (2002), é citada uma defesa familiar do realismo científico ocorrida na década de 1960, quando o filósofo americano Grover Maxwell apresentou o seguinte problema para o antirrealista. Considere-se a seguinte sequência de eventos: (1) olhar para algo a olho nu, (2) olhar para algo através de uma janela, (3) olhar para algo usando óculos de forte graduação, (4) olhar para algo com binóculos, (5) olhar para algo através de um microscópio de baixa potência, (6) olhar para algo através de um microscópio de alta potência, e assim por diante. Maxwell argumentou que esses eventos se encontram numa continuidade regular. Como separar então aquilo que é considerado observável daquilo que não o é? Um biólogo pode observar microrganismos em seu microscópio de alta potência, ou pode apenas detectar a sua presença tal como o físico faz quando rastreia elétrons em uma câmara de nuvens? Se alguma coisa só pode ser vista com a ajuda de instrumentos científicos sofisticados, essa entidade é considerada observável ou inobservável?

Que grau de sofisticação os instrumentos precisam alcançar antes de se ter um caso de observação ao invés de simples detecção ou percepção? Não há uma linha de demarcação satisfatória, argumentou Maxwell; portanto, a tentativa do antirrealista de classificar as entidades como observáveis ou inobserváveis é claramente ineficiente. O argumento de Maxwell é apoiado pelo fato de que às vezes os próprios cientistas falam de “observar” partículas com a ajuda de aparelhos sofisticados. Na bibliografia filosófica os elétrons são tidos geralmente como exemplos paradigmáticos de entidades inobserváveis, embora os cientistas frequentemente se sintam à vontade para falar de “observar elétrons usando um detector de partículas”. Isso, certamente, não prova que os filósofos estejam errados e que os elétrons sejam afinal observáveis, pois a conversa dos cientistas é provavelmente considerada como uma façon-de-parlerxiv.

Os argumentos de Maxwell são poderosos, mas ainda inconclusivos. Bas van Fraassen (1980), assevera que os argumentos de Maxwell só mostram que “observável” é um conceito impreciso. Um conceito vago possui casos de fronteira, ou seja, regiões que não deixam claro se o conceito é válido ou não. “Calvo”, na visão de Fraassen, é um exemplo óbvio. Sendo que a queda de cabelo possui gradações, há muitos homens sobre os quais não se poderia afirmar se são ou não calvos. Mas van Fraassen assevera que conceitos vagos são perfeitamente usáveis, e que podem indicar diferenças reais no mundo. Realmente, ao menos em certa medida, grande parte dos conceitos é vaga. Ninguém discordaria que a diferença entre calvos e cabeludos é ilusória e sem importância só porque “calvo” é vago. Certamente, se houver uma tentativa no sentido de demarcar a fronteira exata entre calvos e cabeludos, ela será completamente arbitrária. Mas uma vez que há casos nítidos de homens que são calvos e casos nítidos de homens que não o são, a impossibilidade de se traçar uma linha divisora exata não é algo relevante. O conceito é perfeitamente usável apesar da sua vagueza.

Ainda sob a ótica de van Fraassen (1980), o mesmo se aplica precisamente a “observável”. Há casos claros de entidades que podem ser observadas — cadeiras, por exemplo — e casos nítidos de entidades que não podem ser observadas, como elétrons, por exemplo. O argumento de Maxwell apenas reforça o fato de que há casos de fronteira que deixam os filósofos indecisos se as entidades em questão podem ser observadas ou apenas detectadas. Portanto, uma linha demarcatória exata entre observáveis e inobserváveis seria inevitavelmente arbitrária.

No entanto, uma coisa é mostrar que há uma distinção real entre entidades observáveis e inobserváveis, outra é mostrar que a distinção tem o peso filosófico que os antirrealistas nela colocam. Recorde-se que os antirrealistas defendem uma atitude de completo agnosticismo frente às afirmações sobre a parte inobservável da realidade — não há um modo de saber se são verdadeiras ou não, afirmam. Ainda que se conceda a van Fraassen o mérito de que existam casos claros de entidades inobserváveis, e que isso é o bastante para o antirrealista ser bem-sucedido, o Antirrealismo ainda precisa fornecer uma prova para afirmar que o conhecimento da realidade inobservável é totalmente impossível.

    1. A subdeterminação — um contra-argumento antirrealista

A favor do antirrealismo há outro argumento alicerçado na relação entre os dados observacionais do cientista e as suas afirmações teóricas. Segundo a explicação de Okasha (2002), os antirrealistas creem que os dados mais recentes aos quais as teorias científicas respondem são sempre de caráter observacional. Mesmo grande parte dos realistas concordaria com essa afirmação.

Os antirrealistas argumentam então que os dados observacionais “subdeterminam” as teorias que os cientistas desenvolvem a partir dessa base observacional. O que isso tem de tão importante para os antirrealistas? A importância está no fato de que os dados podem em princípio ser explicados por pelo menos duas teorias mutuamente incompatíveis, assevera Okasha (2002). Assim, de acordo com os antirrealistas, as teorias científicas que postulam entidades inobserváveis estão subdeterminadas pelos dados observacionais, ou seja, haverá sempre várias teorias rivais que podem dar conta desses dados com a mesma eficiência.

Mas será verdadeiro que certo conjunto de dados observacionais possa sempre ser explicado por muitas teorias diferentes, como defendem os antirrealistas? Os realistas geralmente respondem ao argumento da subdeterminação insistindo que essa afirmação é verdadeira apenas num sentido trivial e desinteressante. Só porque duas teorias podem dar conta dos dados observacionais não significa que não há como se escolher entre elas. Pois uma das teorias pode ser mais simples que a outra, por exemplo, ou pode explicar os dados de um modo intuitivamente mais plausível, ou pode postular um número menor de causas ocultas, e assim por diante.

Esta resposta é apoiada pelo fato de haver relativamente poucos casos de subdeterminação na história da ciência. Se os dados observacionais sempre podem ser bem explicados por várias teorias diferentes, tal como sustentam os antirrealistas, certamente os cientistas não deveriam viver em um desacordo perpétuo uns com os outros, afirma Okasha (2002). Mas não é isso que acontece.

Na verdade, quando o registro histórico é consultado, a situação é quase exatamente a inversa da que o argumento da subdeterminação preconiza. Ao invés de os cientistas se depararem com um grande número de explicações alternativas dos seus dados observacionais, quase sempre têm dificuldade em encontrar apenas uma só teoria que se ajuste aos dados adequadamente. Isto fornece uma base ao argumento realista de que a subdeterminação é uma preocupação meramente filosófica, que pouca relação tem com a prática científica real.

Os realistas entendem que o problema da subdeterminação pode ser eliminado na prática usando-se critérios como a simplicidade, a fim de discriminar entre as explicações concorrentes dos dados observacionais. Por outro lado negam que tais critérios sejam indicadores fiáveis da verdade. As teorias mais simples podem ser mais úteis para se trabalhar, mas não são intrinsecamente mais prováveis do que as teorias complexas. Portanto, o argumento da subdeterminação resiste: há sempre múltiplas explicações dos dados apresentados, e não se tem meios de se saber qual delas é a verdadeira; portanto, o conhecimento da realidade inobservável não pode ser obtido.

    1. A tréplica Realista

No entanto, a história não acaba aqui; há ainda outra contra-argumentação realista. Os realistas acusam os antirrealistas de aplicar seletivamente o argumento da subdeterminação. Se o argumento for aplicado consistentemente, atingirá também o conhecimento de grande parte do mundo observável, dizem os realistas. Para entender por que os realistas dizem isso, note-se que muitas coisas que são observáveis nunca foram efetivamente observadas. Pense-se num evento como um grande meteorito atingindo a Terra. Ninguém jamais viu um evento desses, mas é claramente observável. Isso acontece porque nenhum humano estava no lugar certo na hora certa. Apenas uma pequena fração do que é observável foi efetivamente observado.

O ponto central é o seguinte. Os antirrealistas afirmam que a parte inobservável da realidade se encontra além dos limites do conhecimento científico. Assim, afirmam que é possível obter-se conhecimento de objetos e eventos observáveis, ainda que nunca tenham sido observados. Mas as teorias sobre objetos e eventos observados são tão subdeterminadas pela coleta de dados quanto as teorias sobre os inobserváveis. Se o argumento da subdeterminação for aplicado consistentemente, dizem os realistas, a conclusão é que só se poderia adquirir conhecimento verdadeiro das coisas que já foram efetivamente observadas.

Dizer que o conhecimento do inobservado é impossível, é dizer que muito do que passa por conhecimento científico não é realmente conhecimento. Os realistas científicos, obviamente, não aceitam esta conclusão. Ao invés, tomam-na como prova de que o argumento da subdeterminação tem de estar errado. Uma vez que a ciência claramente produz conhecimento do inobservado, a despeito do fato de que as teorias sobre o inobservado são subdeterminadas pela coleta de dados, segue-se que a subdeterminação não é um obstáculo ao conhecimento. Portanto, o fato de que essas teorias sobre o inobservável são subdeterminadas pelos dados coletados não significa que a ciência não possa dar ao homem o conhecimento verdadeiro da região inobservável do mundo. Neste caso, a posição antirrealista é no final das contas arbitrária, dizem os realistas. Quaisquer que sejam os problemas com o entendimento de como a ciência pode produzir conhecimento dos átomos e dos elétrons são igualmente problemas para o entendimento de como a ciência pode produzir conhecimento real a partir de objetos comuns de tamanho regular.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Fazendo-se uma sucinta retrospectiva do que foi abordado até aqui, conclui-se que, no primeiro capítulo ficou estabelecida a descrição geral de ambos os lados do debate. O Realismo Científico é descrito como uma visão positiva da ciência — as teorias científicas descreveriam corretamente a natureza como algo que não dependa da mente para existir. O sucesso da ciência não seria interpretado como um evento miraculoso. As teorias científicas têm sido muito bem-sucedidas na previsão, manipulação e identificação dos fenômenos do mundo, e a explicação mais simples disso, do ponto de vista realista, é que elas descrevem corretamente a natureza do mundo, ou algo próximo disso. O Antirrealismo é uma antítese do Realismo quanto às entidades observáveis e não observáveis. Sob esse ponto de vista, a ciência não poderia retratar a realidade de átomos, DNA, buracos negros, etc.. Para o Antirrealismo, o único propósito de se criar uma teoria que trate dessas entidades seria prever certo tipo de comportamento dos gases que possa ser constatado pela observação. Se os gases realmente contêm ou não moléculas em movimento não importa; o objetivo da teoria cinética (na visão antirrealista) não é descrever a realidade dos fatos ocultos, mas apenas fornecer um modo útil e prático de se prever observações. Por isso o Antirrealismo é também conhecido como “instrumentalismo”, pois considera as teorias científicas como instrumentos para ajudarem os cientistas a prever fenômenos observacionais, ao invés de tentar descrever a natureza obscura da realidade.

No segundo capítulo abordaram-se os pontos nevrálgicos do debate, que causam maior atrito entre os filósofos, especialmente no ponto em que ambos os lados divergem a respeito de entidades observáveis e inobserváveis, ou seja, até agora ainda não se estabeleceu uma linha divisória rígida entre o que é ou não observável. Realistas e antirrealistas continuam tendo posições bastante conflitantes neste quesito. Quanto ao argumento do milagre, deu-se atenção específica à sua exposição, a fim de que essa posição filosófica realista ficasse bem estabelecida e compreendida.

No terceiro capítulo usou-se como estudo de caso o episódio da superação da teoria do flogisto pela do oxigênio na época de Lavoisier a fim de trazer ao debate as contribuições contemporâneas da filosofia da ciência quanto à veracidade ou não das teorias científicas, bem como sua capacidade de representar o real e de prever fenômenos químicos e físicos, mesmo em situação de completa distorção ou falseabilidade, como no caso apresentado. Mostrou-se que teorias científicas desmentidas ou consideradas falsas previram com bastante precisão não só fenômenos conhecidos, em parte, como fenômenos novos, completamente desconhecidos, como no caso da teoria ondulatória da luz através do éter, algo completamente descartado da ciência atual.

Observou-se que o debate Realismo/Antirrealismo ainda não teve, até agora, um desdobramento conclusivo para qualquer dos lados, e provavelmente esse desdobramento não ocorrerá nos próximos anos, pois à medida que a tecnologia aumenta, novas formas de observação serão trazidas para o cenário científico, bem como novos aparelhos extensores dos sentidos humanos serão criados, alçando este debate para patamares atualmente desconhecidos. Ainda que boa parte das entidades hoje consideradas inobserváveis venha a se tornar observável em um futuro a médio e longo prazo, o desenvolvimento científico postulará por meio de novas teorias outras entidades que estarão além do alcance observacional humano, a fim de poder emprestar a fenômenos desconhecidos uma ontologia que lhes torne cognoscíveis ou inteligíveis. Durante esse processo, o debate será reavivado em suas raízes, e novas argumentações e contra-argumentações serão criadas com base nos novos dados. Essa tem sido a tendência desde que Berkeley deu origem ao espírito de Antirrealismo em voga hoje, e desde então a história da ciência confirma que o debate não parou mais, e provavelmente nunca será encerrado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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i SILVA, Marcos Rodrigues da. Ensino de ciências: realismo, antirrealismo e a construção do conceito de oxigênio. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.20, n.2, abr.-jun. 2013, pp. 481-497.

ii Anjan Chakravartty: É um filósofo analítico e professor de Filosofia na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Seu trabalho se concentra em tópicos da filosofia da ciência, metafísica e epistemologia. Ele é o diretor do Centro de Ciência John J. Reilly, um centro de tecnologia e valores da mesma universidade, e é o editor-chefe do periódico Estudos de revistas em história e filosofia da ciência. Chakravartty obteve seu PhD na Universidade de Cambridge e, anteriormente, ensinou na Universidade de Toronto. Conferir em < http://bit.ly/25PiofW> e < http://ntrda.me/1XcEMhF > Acesso em 9 jun. 2016.

iii KHLENTZOS, Drew. Challenges to Metaphysical Realism. The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2016 Edition). Disponível em: < http://stanford.io/29fU7aX>. Acesso em 05 jul. 2016.

iv Ibidem.

v CARNAP, Rudolf. 1963. Replies and Systematic Expositions. In The Philosophy of Rudolph Carnap. Organizado por Paul Arthur Schilpp. La Salle, IL: Open Court. Apud CASTRO, Eduardo. Compendio em linha de problemas de filosofia analítica. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (2014).

vi BARRA, Eduardo Salles. A realidade do mundo da ciência: um desafio para a história, a filosofia e a educação científica. Revista Ciência e Educação, vol. 5, 1998, pp. 15-26.

vii O escopo do trabalho do professor é avaliar a prática docente inserida dentro de um debate realismo/antirrealismo, o que não é o objetivo deste trabalho. Contudo, sua visão é imprescindível para a introdução deste último capítulo.

viii KIM, Mi Gyung. Hyle. The ‘Instrumental’ Reality of Phlogiston. International Journal for Philosophy of Chemistry, Vol. 14, N.1 (2008). pp. 27-51. Disponível em: http://www.hyle.org/journal/issues/14-1/kim.htm#ad> Acesso em 12 jul. 2016.

ix THAGARD, Paul. A estrutura conceitual da revolução química. Revista Princípios, Natal, v. 14, n. 22, jul-dez de 2007, pp. 265-303. Disponível em: < http://www.periodicos.ufrn.br/principios/article/view/482/416> Acesso em 12 jul. 2016.

x LEICESTER, Henry. The historical background of chemistry. New York: Dover. 1971.

xi BERKELEY, George. De motu. Revista Scientiæ Studia, São Paulo, vol. 4, n. 1, pp. 115-137.

xii MALTEZ, José Adelino. Idealismo platônico. Centro de Estudos do Pensamento Político. Lisboa. 2003. Disponível em: < http://bit.ly/29T7hPL>. Acesso em 15 jul. 2016.

xiii Agnosticismo: Doutrina que considera inacessível ou incognoscível (que não se pode conhecer) ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico (ou observacional) de comprovação científica.

xiv Façón-de-parler: Expressão francesa que significa “jeito” ou “maneira” de se falar algo ou a respeito de algo.

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